Como estruturar o M&A da sua empresa no próximo ano
Um roteiro prático: valuation, due diligence e a conversa difícil com o sócio fundador.
Lina Okabe
Ex-Diretora Financeira · capital aberto
Toda transação de fusão e aquisição começa muito antes do termo de confidencialidade. Começa em uma planilha modesta, normalmente em uma noite de domingo, quando o fundador percebe que o jogo mudou. A pergunta deixa de ser ‘quanto vale a minha empresa?’ e passa a ser ‘o que eu quero da próxima década da minha vida?’.
É nesse momento que entra o trabalho de preparação. Empresas vendidas no ápice são, quase invariavelmente, empresas que se prepararam por dois ou três ciclos antes do leilão. Governança em ordem, contábil auditada, contratos limpos, equipe-chave estabilizada com vesting. Sem esse trabalho prévio, qualquer múltiplo razoável vira desconto na due diligence.
O segundo erro mais comum é confundir valuation com preço. Valuation é uma conta. Preço é o resultado de uma negociação entre dois lados que já decidiram se gostam um do outro. Quanto mais você gerencia a narrativa da operação, menos a planilha importa. Compradores estratégicos compram histórias verificáveis, não DCFs.
Por fim, há a conversa que ninguém quer ter: a que envolve sócio fundador, família e ego. Vender é, antes de tudo, um exercício de luto bem feito. O dinheiro chega, mas a identidade construída ao longo de quinze anos não migra junto com a wire transfer. Quem ignora esse capítulo deixa valor na mesa — emocional e financeiro.
O ano que vem será atípico para M&A no middle-market brasileiro. Há liquidez represada, fundos com prazo expirando e taxa de juros em descompressão. Significa janela. Significa também que quem chegar despreparado será apenas mais um logo numa apresentação de roadshow.